Essa frase aparece muito nas relações.
Parece óbvio que eu fiquei chateada. Óbvio que precisava de ajuda. Óbvio que aquilo me magoou. Óbvio que eu gostaria que a outra pessoa tivesse me procurado. Óbvio que, depois de tantos anos juntos, ele deveria saber.
Só que aquilo que parece evidente para nós nem sempre é para a outra pessoa.
Como psicóloga em Passo Fundo e trabalhando também com terapia de casal, percebo o quanto algumas relações vão acumulando ressentimentos não apenas pelo que foi dito, mas também por tudo aquilo que nunca chegou a ser falado.
Dizer o que sentimos, o que precisamos e o que esperamos não deveria ser entendido como cobrar demais ou criar problema.
Muitas vezes, dizer o óbvio é uma forma de cuidar da relação.
Se a pessoa me conhece, ela não deveria saber?
Às vezes, vai saber.
Depois de anos convivendo, conhecemos gostos, reações, hábitos e sensibilidades das pessoas que fazem parte da nossa vida.
Mas conhecer alguém não significa conseguir adivinhar tudo o que essa pessoa sente ou precisa.
E existe uma armadilha quando começamos a transformar afeto em capacidade de adivinhação:
“Se me amasse, saberia.”
“Eu não deveria precisar pedir.”
“Depois de todo esse tempo, como não percebeu?”
Só que talvez a outra pessoa realmente não tenha percebido.
Ou percebeu que havia alguma coisa errada, mas entendeu de outra maneira.
Nós interpretamos as situações a partir da nossa própria história. Aquilo que para uma pessoa significa cuidado pode não ter o mesmo significado para outra.
Por isso, comunicar também é oferecer à outra pessoa informações que ela não teria como acessar sozinha.
Por que pode ser tão difícil falar sobre o que sentimos?
Porque ninguém aprende a se comunicar fora de uma história.
Tem gente que cresceu em famílias em que sentimentos eram conversados.
E tem gente que aprendeu que falar sobre aquilo que incomoda termina em briga.
Algumas pessoas aprenderam a pedir ajuda.
Outras aprenderam que precisar de alguém era sinal de fraqueza.
Tem quem tenha crescido vendo conflitos serem resolvidos com conversa e quem tenha aprendido que, depois de uma discussão, as pessoas simplesmente passam dias sem se falar até tudo parecer normal novamente.
Essas experiências podem participar da maneira como nos comunicamos hoje.
Por vezes, o silêncio foi um recurso importante em algum momento da vida.
O problema é quando continuamos nos calando em relações nas quais gostaríamos de construir intimidade, parceria e segurança.
O silêncio também comunica
Mesmo quando não dizemos nada, alguma coisa acontece na relação.
Uma pessoa fica incomodada e se afasta.
A outra percebe o afastamento, mas não entende o motivo.
Tenta se aproximar e recebe uma resposta curta.
Então também se afasta.
No final, as duas podem estar magoadas e nenhuma sabe exatamente o que aconteceu com a outra.
Na Terapia, olhamos muito para essas sequências.
Não apenas para “quem começou”, mas para como a resposta de uma pessoa participa da resposta seguinte e como, aos poucos, construímos ciclos que podem se repetir.
Às vezes, uma pessoa se cala para evitar uma briga.
A outra interpreta o silêncio como indiferença e aumenta a cobrança.
Quanto maior a cobrança, mais a primeira se fecha.
E quanto mais ela se fecha, mais a outra cobra.
As duas estão tentando lidar com aquela relação, mas as estratégias utilizadas acabam alimentando justamente o ciclo que produz sofrimento.
Falar também nos deixa vulneráveis
Existe outro motivo pelo qual dizer o óbvio pode ser difícil.
Quando eu digo claramente aquilo que preciso, também preciso lidar com a possibilidade de não receber a resposta que gostaria.
É diferente pensar:
“Ela deveria perceber que eu preciso de ajuda.”
e dizer:
“Eu estou sobrecarregada e preciso que tu divida isso comigo.”
No primeiro caso, existe uma expectativa.
No segundo, eu me posiciono.
E me posicionar significa permitir que a outra pessoa responda.
Talvez concorde.
Talvez não.
Talvez tenha entendido a situação de uma maneira completamente diferente.
Por isso, comunicação exige alguma vulnerabilidade.
Mas também produz nitidez.
Dizer o que tu sente não significa responsabilizar a outra pessoa pelo teu sentimento
Essa diferença é importante.
Existe uma distância entre:
“Tu me faz sentir insignificante.”
e: “Quando isso aconteceu, eu me senti pouco considerada.”
Na primeira frase, entregamos à outra pessoa uma conclusão sobre quem ela é e o que provoca em nós.
Na segunda, contamos como determinada situação nos afetou.
Isso não significa retirar a responsabilidade das pessoas pelos próprios comportamentos.
Se alguém fez algo que machucou, podemos falar claramente sobre isso.
A questão é conseguir diferenciar aquilo que aconteceu da interpretação que construímos sobre a intenção da outra pessoa.
Nem sempre sabemos por que alguém fez alguma coisa.
Podemos perguntar.
Pedir também faz parte de uma boa comunicação
Às vezes, conseguimos explicar durante vinte minutos por que estamos chateadas e, no final, a outra pessoa ainda não sabe o que esperamos que seja diferente.
Um pedido pode ajudar.
“Quando tu perceber que vai chegar mais tarde, consegue me avisar?”
“Eu preciso que a responsabilidade por isso seja dividida entre nós.”
“Quando eu estiver te contando alguma coisa difícil, eu gostaria que tu me escutasse antes de tentar encontrar uma solução.”
“Eu não quero continuar essa conversa nesse tom. Podemos parar e retomar depois?”
Quanto mais concreto for aquilo que estamos tentando comunicar, maiores são as possibilidades de construir um acordo.
Mas um pedido continua sendo um pedido.
Falar com transparência não garante que a outra pessoa vai concordar conosco.
Comunicação não é uma ferramenta para controlar a resposta de alguém. É uma maneira de tornar evidente aquilo que está acontecendo entre nós.
Nem tudo que parece óbvio é universal
Isso vale especialmente para relacionamentos.
O que significa demonstrar carinho?
Quanto contato esperamos durante o dia?
O que consideramos uma divisão justa das tarefas?
O que é privacidade dentro de uma relação?
Quanto tempo queremos passar juntos?
Como lidamos com dinheiro?
O que consideramos uma quebra de confiança?
Não existe uma única resposta para essas perguntas.
Cada pessoa chega a uma relação carregando referências construídas ao longo da própria história.
Por isso, muitos conflitos não acontecem porque uma pessoa está certa e a outra errada.
Às vezes, duas pessoas estão partindo de expectativas diferentes e nunca conversaram sobre elas porque cada uma acreditava que sua maneira de entender aquilo era óbvia.
Dizer o óbvio também vale para as coisas boas
E essa parte me parece especialmente importante.
Não precisamos comunicar apenas aquilo que incomoda.
“Eu gostei muito que tu fez isso.”
“Eu estava precisando desse abraço.”
“Obrigada por ter lembrado.”
“Eu admiro a maneira como tu lidou com isso.”
“Eu gosto da nossa vida.”
Também parece óbvio.
Mas afeto não perde valor porque foi colocado em palavras.
Às vezes, passamos tanto tempo tentando melhorar nossa comunicação durante os conflitos que esquecemos que relações também são construídas pelas pequenas confirmações cotidianas de afeto, reconhecimento e parceria.
Se importa, vale a pena dizer.
E quando eu não sei como falar?
Tu pode começar sem ter a frase perfeita.
Inclusive dizendo isso:
“Eu não sei muito bem como falar sobre isso, mas preciso tentar.”
Comunicação efetiva e respeitosa não significa falar bonito.
Significa conseguir colocar em palavras aquilo que está acontecendo, escutar a perspectiva da outra pessoa e tentar construir uma conversa em que exista espaço para as duas pessoas.
Isso pode ser aprendido.
E, às vezes, precisa ser treinado.
Na psicoterapia individual ou na terapia de casal, podemos olhar para os padrões de comunicação que foram sendo construídos, compreender de onde algumas dificuldades podem ter vindo e experimentar outras maneiras de expressar sentimentos, necessidades, limites e pedidos.
Você pode desenvolver habilidades de comunicação em terapia em Passo Fundo
Sou Francieli Teixeira, psicóloga, CRP 07/39825, especialista em Terapia Sistêmica e mestre em Psicologia.
No meu trabalho como psicóloga em Passo Fundo/RS e também nos atendimentos online, comunicação aparece com bastante frequência, tanto na psicoterapia individual quanto na terapia de casal.
Meu trabalho não é ensinar frases prontas para evitar conflitos.
É compreender contigo como tu aprendeu a se comunicar, o que acontece quando tenta falar sobre aquilo que sente, quais ciclos estão se repetindo nas tuas relações e quais recursos podemos construir para que tu consiga se posicionar de uma forma mais clara e respeitosa.
Se tu percebe que tem dificuldade para dizer aquilo que precisa, evita conversas por medo de conflito ou sente que algumas relações continuam presas nas mesmas discussões, pode entrar em contato pelo WhatsApp para conhecer meu trabalho e agendar um horário.
Realizo psicoterapia presencial em Passo Fundo/RS e atendimento psicológico online para pessoas de diferentes lugares do Brasil.
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui uma avaliação psicológica individual.